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terça-feira, 16 de maio de 2017

Uma nova canção


“Saúde e muitos anos de vida!” É muito comum falar isso em aniversários, muitas vezes da boca pra fora. Mas dessa vez é diferente. Dessa vez, o desejo veio da própria aniversariante. Ao completar 15 anos, esse é o único pedido que a apaixonada pela Disney fez, nesse dia 15 de maio. Brenda Soares sofre de uma rara doença autoimune, que atinge uma em cem mil pessoas. Por causa dela, perdeu parte do movimento da parte direita do corpo, o que compromete sua locomoção.  Mas ao contrário de tristeza ou lamento, o que se viu nos olhos da menina foi muita alegria, paz e esperança.

Organizada pela equipe da Santa Casa de Belo Horizonte, encabeçada pelo setor de Comunicação do Hospital, Brenda ganhou uma festa de debutantes dentro do CTI. Balões coloridos, vestido novo, pulseira, anel, bolo confeitado e decoração de Cinderela. Como ela sonhou, quis e pediu.

Engasgado desde a chegada ao Hospital, o pai, o cabeleireiro Sérgio Silva, não conseguia esconder a emoção, a gratidão e a felicidade ao ver sua “princesa” completar os 15 anos. “Ser pai e ver a felicidade da minha filha não tem como explicar! Eu estou muito feliz ao ver o sorriso dela! Ela chegou aqui sem conseguir andar e hoje dançou valsa comigo. Não tenho palavras”, desabafava.


Com os olhos brilhando, Brenda analisava cada detalhe. Do lacinho da pulseira que refletia todo o seu brilho interior aos balões pregados no teto, o sorriso largo e a face de surpresa acompanharam a debutante durante toda a homenagem.

Brenda teve sorte. Sorte de estar em um lugar humano, que preocupa com o paciente e não o trata apenas como número de cliente no sistema. Sorte de ainda conseguir um leito para internação, frente aos mais de 400 que foram fechados.

Que não seja mais sorte. E que ela não seja a única.
Brenda com a equipe do CTI

quinta-feira, 2 de março de 2017

Eu queria que essa fantasia fosse eterna...


Neste carnaval resolvi assumir minha barriga em uma fantasia de abacate, que ficou famosa na internet. Eu sempre morri de vergonha do meu corpo. Só fico sem camisa em casa (e mesmo assim, nem sempre). Quando fui morar em república, fui ficar à vontade para andar sem camisa depois de alguns meses. Ir à piscina ou à praia, eu só tiro a camisa quando vou, de fato, entrar na água (coisa que sou apaixonado). Na época de colégio, NUNCA jogava no time dos “sem camisa” porque era uma tortura me despir e sentir o olhar de cobrança pelo corpo perfeito que nunca tive.  Por isso, a fantasia de abacate foi, para mim, um alívio, um consolo, um incentivo, um tapa de luva na minha cara falando que eu não preciso ter vergonha de mim, do meu corpo.


À princípio, levei mais na brincadeira, mas, com o passar das horas, fui vendo o quanto aquilo me fez bem. No caminho, muitas pessoas comentavam, parabenizavam pela fantasia, achavam engraçado etc. Ok. Mas o que me chamou atenção foi que muita gente também falou que eu estava muito magro pra usá-la. E até alguns casos de elogios pela aparência física, com investidas mais_ digamos assim_ diretas. A diferença foi mais gritante quando tive que tirá-la para ir ao banheiro (ou quando ela se derreteu por causa da chuva, rs). Naquele momento, eu era só mais um homem sem camisa no carnaval de rua. Não. Mais um não. Eu era um barrigudo andando sem camisa. Ninguém parou para me elogiar, “chegar” ou qualquer coisa do tipo. Muito pelo contrário. Vi alguns olhares de “nojo” ou de julgamento de não ser o modelo fitness da moda.

E aí percebi que o buraco é bem mais embaixo...
Sou homem, branco, hetero, de classe média. Sou total privilegiado.
No carnaval, a minha fantasia era simples, divertida e, ainda assim, me suscitou a essas questões. Mas e as outras “””fantasias”””?
Sábado era o dia do famoso bloco Então Brilha!, que reuniu milhares de pessoas com muita purpurina, glitter, brilhando da cabeça aos pés, em uma rua tradicionalmente conhecida pelos seus “prostíbulos”. Sem julgamento.
Na segunda-feira, fui ao bloco Corte Devassa e Garotas Solteiras. Em ambos os blocos, pouca roupa e muito homem vestido de mulher (e um pouquinho vice-versa).  Sem julgamento. No mesmo dia, mais cedo, teve o tradicional Baianas Ozadas, que reuniu milhares de pessoas com roupas que remetem ao candomblé. Muitos colares, turbantes, batas brancas, pinturas... Sem julgamento.
Em absolutamente todos os dias e blocos, muitos homossexuais. Livres, como devem ser. Felizes, dançando, rebolando, beijando na boca. O máximo de julgamento que ouvi era “Ah, é carnaval!”.
Mas, como diria o clichê do Los Hermanos: “todo carnaval tem seu fim”.
É o fim?
Por que o gay não pode sentir essa liberdade de beijar quem bem quiser na rua, na festa, em casa!? Só porque o carnaval acabou? Por que o candomblé não pode sair em paz com suas vestes, espalhar sua crença, sem ser rotulado de macumbeiro!? Só porque o carnaval acabou? Por que a mulher não pode ser livre pra usar a roupa que bem entender sem ser violentada e chamada de puta!? Só porque o carnaval acabou? Por que o corpo fora do padrão não pode assumir suas curvas sem se tornar ponto de referência e motivo de chacota ou especulação alheia!? Só porque o carnaval acabou?
Você aí que tá postando legenda de que “queria que essa fantasia fosse eterna”, vamos usar a roupa do respeito ao próximo o ano inteiro e não só nesses quatro dias de folia!?

Vamos? Então vamos!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pequenas, apenas ao vento...

De família de educadores, principalmente na área de letras, cresci aprendendo o poder da palavra. Uma vez deferida, não volta. E ela pesa. E muito!
Cheguei na Universidade para cursar o curso que eu sempre tanto sonhei: Jornalismo. Uma profissão que lida diariamente com a palavra e, principalmente, com o peso e importância delas. Podemos glorificar ou destruir a vida de alguém, se quisermos. Influenciamos e formamos opiniões. Podemos discutir assuntos polêmicos, posicionando-nos, instigando reflexões e possíveis mudanças de cultura e mundo. Mas é preciso cuidado... podemos construir e destruir sonhos.
E o senhor tentou destruir o meu. Não diretamente e de forma brusca. Mas aos poucos, nos detalhes, talvez mesmo sem perceber. Mas sou observador, detalhista e com memória de elefante.

“Não entendo quem dá parabéns pra quem formou. Não fez mais que obrigação!”

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O que vi na rua

12 de abril de 2015. Segunda manifestação do ano, em todo o Brasil, contra a corrupção. Mesmo com o pé machucado, fui lá fazer a cobertura desse levante popular. Por incrível que pareça, eu estava realmente empolgado com a escala. Cobrir a manifestação é uma ótima oportunidade para participar do movimento e contribuir, de alguma forma, com o jornalismo brasileiro. Além disso, a gente só pode falar daquilo que realmente conhece, não é mesmo? Eu estava ansioso para chegar lá e ouvir da população indignada o porquê estavam protestando, contra o que lutavam e o que realmente os perturbavam.

Tive total liberdade na escolha da abordagem da minha matéria. Com isso, planejei mostrar apenas os manifestantes e expor o que eles foram fazer lá, se sabiam o que aconteceria caso Dilma saia etc. Na pauta, perguntas simples como “o que você veio fazer aqui?”, “o que pode acontecer?”, entre outras nesse sentido. Claro que, como no jornalismo nada é fechado, estava aberto a novas perguntas dependentes das respostas dadas.
 A rua realmente estava muito bonita, com todo mundo de verde e amarelo lutando pela dignidade do país, não há como negar. A concentração oficial estava marcada para às 10h e a saída para 12h. Esperava estar muito mais cheio do que eu vi. Pela mobilização nas redes sociais, pelos discursos oriundos pós-15 de março, pela crescente insatisfação popular. Tinha muita gente. Mas não as 20 mil pessoas estimadas pela organização.
Mas será que havia equidade no discurso dessas pessoas? Os manifestantes sabiam o que estavam fazendo lá? Ou era mais uma oportunidade para tirar a selfie com a camisa da CBF e colocar no instagram com a hashtag #vemprarua, mostrando-se engajado politicamente? Foi pra isso que fui pra rua.
Globeleza "UÉ, carnaval já acabou?"
Entrevistei dezenas de pessoas, adultos, jovens, crianças, sem distinção de idade. De cor até que sim, mas não foi por minha culpa. Os únicos negros que vi durante as 6 horas que estava acompanhando essa multidão foram alguns vendedores ambulantes e duas mulheres que pediam revolução marxista. Fora isso, brancos, aparentemente de classe média alta e, segundo o próprio narrador de cima do trio, “só gente bonita”.
As opiniões foram diversas. De reforma política com manutenção da presidente até intervenção militar, ouvi todas elas e trago aqui o que me chamou mais atenção. É claro que tinha muita gente coerente, que sabia exatamente o que estava fazendo lá e o destino do país. Mas, infelizmente, a maioria não era assim. Pelo menos entre os meus entrevistados e cartazes.
Agora chega de blá-blá-blá e vamos ao que interessa: a manifestação foi pra quê?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O machismo às avessas

Leonardo era o homem que toda mulher sonhou em ter: obediente, recatado, cozinhava, lavava e passava. Como amante também não ficava atrás. De corpo quase escultural naturalmente, entre quatro paredes fazia de tudo e deixava ser dominado pela esposa. Mesmo que não tivesse muito afim, depois daquele dia estressante no trabalho, era só a Lorena pedir que lá estava ele para a servir do jeito que ela gostava.
A rotina era como um conto de fadas para ela. Quando Lorena levantava para trabalhar, o café já estava pronto e posto na mesa. As crianças já de banho tomadas, quase prontas para a escola. Café tomado, ela já levava as crianças para a escola enquanto ele andava cerca de trinta minutos para pegar o ônibus para ir ao trabalho. Era melhor assim, já que a escola dos meninos ficavam no caminho do trabalho da mãe e, afinal, o carro era mais dela então ele que se virasse.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A (des)valorização do jornalismo

Nesse (muito) tempo sem escrever no blog, tive várias idéias de temas, mas nenhum saiu do pensamento. Aborto, feminismo, o estupro não consumado, o machismo diário, tudo isso ficou martelando na minha cabeça durante essas semanas, de como eu trataria tal assunto com boas bases de dados e fatos.
Mas, como jornalista, resolvi tratar de factuais.
Não, não vou aqui falar de algum acidente, da falta d’agua, de nota policial nem nada disso. Aqui vai valer a metalinguagem. O jornalismo está em pauta e eu vou explicar agora o porquê de ser factual.
Ultimamente tenho visto alguns fatos que me deixam intrigado (e desesperançoso) com a profissão que escolhi para a minha vida. Vejo assessores contratados que nunca entraram em uma aula de jornalismo; estagiário fazendo o papel de funcionário, mas com menos da metade do reconhecimento; e a trágica crise mercadológica, com demissões em massa e insatisfações no trabalho, levando sonhos por água abaixo devido à falta de valorização do ofício.
Juntando tudo isso, surge um papo com uma ex-estagiária sobre as frustrações do jornalista em formação e ainda pula na minha frente uma sugestão de documentário sobre isso. Não tive como fugir. Era esse, então, o meu tema de post!
Mas vamos ao que interessa (ou não): a minha “análise” sobre o que está por aí na vida.

domingo, 26 de outubro de 2014

O discurso do ódio

Não me posicionei diretamente sobre política nesse período eleitoral, mas uma coisa me preocupou muito durante esse tempo: o discurso de ódio nos dois lados. Em várias discussões acaloradas, os argumentos se esvaíam e sobrava apenas o ódio. E não só entre os eleitores mais cegos, mas principalmente entre os candidatos. O que se viu não foi uma campanha e debate de propostas. Era apenas ataque. Em relação ao governo que o outro fez, à corrupção que ambos praticam e quase ofensas pessoais_ me senti mais em uma briga de colégio, em que o ofendido chama a mãe pra defender.
Mas o que me “motivou” a escrever esse texto e estreiar esse blog foi o que eu presenciei hoje, agora há pouco, enquanto voltava de viagem. A apuração das eleições estava acirrada e já no fim, dando vitória à presidente Dilma. Como era de se esperar, vários comentários pequenos e silenciosos, entre os amigos/namorados que viajavam lado a lado. Até aí tudo bem. Até um jovem (que para meu azar, estava atrás de mim) começar com o discurso de ódio na maior altura_ parecia que queria atingir até o motorista. Era tanta coisa feia nas falas dele, que tenho que dividir em tópicos alguns dos principais comentários.