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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pequenas, apenas ao vento...

De família de educadores, principalmente na área de letras, cresci aprendendo o poder da palavra. Uma vez deferida, não volta. E ela pesa. E muito!
Cheguei na Universidade para cursar o curso que eu sempre tanto sonhei: Jornalismo. Uma profissão que lida diariamente com a palavra e, principalmente, com o peso e importância delas. Podemos glorificar ou destruir a vida de alguém, se quisermos. Influenciamos e formamos opiniões. Podemos discutir assuntos polêmicos, posicionando-nos, instigando reflexões e possíveis mudanças de cultura e mundo. Mas é preciso cuidado... podemos construir e destruir sonhos.
E o senhor tentou destruir o meu. Não diretamente e de forma brusca. Mas aos poucos, nos detalhes, talvez mesmo sem perceber. Mas sou observador, detalhista e com memória de elefante.

“Não entendo quem dá parabéns pra quem formou. Não fez mais que obrigação!”

Pode parecer bobo, mas isso me fez pensar por dias. Me fez revoltar. Você contava um caso todo cheio de si e da razão (como sempre o fez) achando vantagem ter essa opinião.
Não. Não é mais que obrigação. E também não. Formar não é fácil. Aturar a distância, a saudade, o questionamento interno se é esse o caminho, a cobrança do professor, do colega, da família, de si.
Curiosamente, um ano depois estava lá você, parabenizando todos aqueles que te chamavam de amor para conseguir nota, que se cala diante da atrocidade do seu discurso. Mas, não curiosamente, essa contradição já é característica, não é mesmo?

“Isso não é uma reportagem! Você não sabe escrever, desse jeito você não vai conseguir nada!”
Lembra que eu disse que as palavras podem doer? Pois é, essas doeram. No fundo.
Nesse momento, fiquei envergonhado. Tive a certeza que aquele lugar não era o meu e que todo o meu sonho não vingaria. “Ah, Marco Túlio, às vezes é só esse texto, você fez correndo, não se dedicou tanto, estava em um dia ruim. Você não é assim”. Repetia isso para mim mesmo até voltar a ter certeza do meu sonho. É normal estudantes se questionarem durante o curso, se estão no caminho certo ou se é aquilo que queriam para a vida toda. Mas não pra mim. Mesmo nos piores momentos, o jornalismo me inspirava e eu tinha certeza desse casamento para toda a vida, porque a investigação e a escrita me motivavam e acalentavam. Sempre tive o pé no chão, quero aprender sempre até o último suspiro. Mas ouvir de um mestre que eu não vou conseguir é de cair por terra todas as convicções.
Mas eu consegui, meu senhor. Consegui superar esse trauma, consegui escrever a minha própria história sem bajular ninguém, consegui alcançar a amizade de quem me desprezava através (palavra que você considera errado né, desculpa) do respeito pelo meu trabalho, consegui formar, consegui ser jornalista. Tenho muito ainda o que conquistar (muito mesmo!), mas não parece mais aquele fracassado que o senhor me fez sentir há cinco anos.

Mas fique tranquilo, meu senhor, você também conseguiu. Conseguiu unir todos os públicos que se estranhavam por anos em prol de um bem comum. Conseguiu ter alunos excepcionais, competentes, bons escritores e que não sofrem o mal de carregar consigo o preconceito  e a preguiça jornalística.
Diferentemente do senhor, pelo visto. Suas palavras carregadas de preconceito e preguiça jornalística ganharam mundo! O que víamos somente a quatro paredes, está aí para todo mundo tomar conhecimento: a censura do short curto que a aluna usava em um dia ensolarado na rua, a não publicação de reportagens que citavam personagens que o senhor não era simpático, a arrogância ao tratar opiniões contrárias às suas, a ditadura (e o senhor fazia questão de frisar essa palavra) imposta em sala de aula, a proibição dos direitos fundamenteis de seres humanos, a soberba ao tratar de assuntos acadêmicos, o abuso de autoridade quando o convinha prejudicar outrem... o machismo, a homofobia, a intolerância.

É, meu senhor, o senhor me disse que eu não conseguiria, eu não chegaria lá. Tenho ainda muita estrada para percorrer, mas parabéns!

O senhor conseguiu. O senhor chegou lá.

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