Neste carnaval resolvi assumir minha barriga em uma fantasia
de abacate, que ficou famosa na internet. Eu sempre morri de vergonha do meu
corpo. Só fico sem camisa em casa (e mesmo assim, nem sempre). Quando fui morar
em república, fui ficar à vontade para andar sem camisa depois de alguns meses.
Ir à piscina ou à praia, eu só tiro a camisa quando vou, de fato, entrar na água
(coisa que sou apaixonado). Na época de colégio, NUNCA jogava no time dos “sem
camisa” porque era uma tortura me despir e sentir o olhar de cobrança pelo
corpo perfeito que nunca tive. Por isso,
a fantasia de abacate foi, para mim, um alívio, um consolo, um incentivo, um
tapa de luva na minha cara falando que eu não preciso ter vergonha de mim, do
meu corpo.
À princípio, levei mais na brincadeira, mas, com o passar
das horas, fui vendo o quanto aquilo me fez bem. No caminho, muitas pessoas
comentavam, parabenizavam pela fantasia, achavam engraçado etc. Ok. Mas o que
me chamou atenção foi que muita gente também falou que eu estava muito magro
pra usá-la. E até alguns casos de elogios pela aparência física, com investidas
mais_ digamos assim_ diretas. A diferença foi mais gritante quando tive que
tirá-la para ir ao banheiro (ou quando ela se derreteu por causa da chuva, rs).
Naquele momento, eu era só mais um homem sem camisa no carnaval de rua. Não.
Mais um não. Eu era um barrigudo andando sem camisa. Ninguém parou para me
elogiar, “chegar” ou qualquer coisa do tipo. Muito pelo contrário. Vi alguns
olhares de “nojo” ou de julgamento de não ser o modelo fitness da moda.
E aí percebi que o buraco é bem mais embaixo...
Sou homem, branco, hetero, de classe média. Sou total
privilegiado.
No carnaval, a minha fantasia era simples, divertida e,
ainda assim, me suscitou a essas questões. Mas e as outras “””fantasias”””?
Sábado era o dia do famoso bloco Então Brilha!, que reuniu
milhares de pessoas com muita purpurina, glitter, brilhando da cabeça aos pés,
em uma rua tradicionalmente conhecida pelos seus “prostíbulos”. Sem julgamento.
Na segunda-feira, fui ao bloco Corte Devassa e Garotas
Solteiras. Em ambos os blocos, pouca roupa e muito homem vestido de mulher (e
um pouquinho vice-versa). Sem
julgamento. No mesmo dia, mais cedo, teve o tradicional Baianas Ozadas, que
reuniu milhares de pessoas com roupas que remetem ao candomblé. Muitos colares,
turbantes, batas brancas, pinturas... Sem julgamento.
Em absolutamente todos os dias e blocos, muitos
homossexuais. Livres, como devem ser. Felizes, dançando, rebolando, beijando na
boca. O máximo de julgamento que ouvi era “Ah, é carnaval!”.
Mas, como diria o clichê do Los Hermanos: “todo carnaval tem
seu fim”.
É o fim?
Por que o gay não pode sentir essa liberdade de beijar quem
bem quiser na rua, na festa, em casa!? Só porque o carnaval acabou? Por que o
candomblé não pode sair em paz com suas vestes, espalhar sua crença, sem ser
rotulado de macumbeiro!? Só porque o carnaval acabou? Por que a mulher não pode
ser livre pra usar a roupa que bem entender sem ser violentada e chamada de
puta!? Só porque o carnaval acabou? Por que o corpo fora do padrão não pode
assumir suas curvas sem se tornar ponto de referência e motivo de chacota ou
especulação alheia!? Só porque o carnaval acabou?
Você aí que tá postando legenda de que “queria que essa
fantasia fosse eterna”, vamos usar a roupa do respeito ao próximo o
ano inteiro e não só nesses quatro dias de folia!?
Vamos? Então vamos!
