Páginas

quinta-feira, 2 de março de 2017

Eu queria que essa fantasia fosse eterna...


Neste carnaval resolvi assumir minha barriga em uma fantasia de abacate, que ficou famosa na internet. Eu sempre morri de vergonha do meu corpo. Só fico sem camisa em casa (e mesmo assim, nem sempre). Quando fui morar em república, fui ficar à vontade para andar sem camisa depois de alguns meses. Ir à piscina ou à praia, eu só tiro a camisa quando vou, de fato, entrar na água (coisa que sou apaixonado). Na época de colégio, NUNCA jogava no time dos “sem camisa” porque era uma tortura me despir e sentir o olhar de cobrança pelo corpo perfeito que nunca tive.  Por isso, a fantasia de abacate foi, para mim, um alívio, um consolo, um incentivo, um tapa de luva na minha cara falando que eu não preciso ter vergonha de mim, do meu corpo.


À princípio, levei mais na brincadeira, mas, com o passar das horas, fui vendo o quanto aquilo me fez bem. No caminho, muitas pessoas comentavam, parabenizavam pela fantasia, achavam engraçado etc. Ok. Mas o que me chamou atenção foi que muita gente também falou que eu estava muito magro pra usá-la. E até alguns casos de elogios pela aparência física, com investidas mais_ digamos assim_ diretas. A diferença foi mais gritante quando tive que tirá-la para ir ao banheiro (ou quando ela se derreteu por causa da chuva, rs). Naquele momento, eu era só mais um homem sem camisa no carnaval de rua. Não. Mais um não. Eu era um barrigudo andando sem camisa. Ninguém parou para me elogiar, “chegar” ou qualquer coisa do tipo. Muito pelo contrário. Vi alguns olhares de “nojo” ou de julgamento de não ser o modelo fitness da moda.

E aí percebi que o buraco é bem mais embaixo...
Sou homem, branco, hetero, de classe média. Sou total privilegiado.
No carnaval, a minha fantasia era simples, divertida e, ainda assim, me suscitou a essas questões. Mas e as outras “””fantasias”””?
Sábado era o dia do famoso bloco Então Brilha!, que reuniu milhares de pessoas com muita purpurina, glitter, brilhando da cabeça aos pés, em uma rua tradicionalmente conhecida pelos seus “prostíbulos”. Sem julgamento.
Na segunda-feira, fui ao bloco Corte Devassa e Garotas Solteiras. Em ambos os blocos, pouca roupa e muito homem vestido de mulher (e um pouquinho vice-versa).  Sem julgamento. No mesmo dia, mais cedo, teve o tradicional Baianas Ozadas, que reuniu milhares de pessoas com roupas que remetem ao candomblé. Muitos colares, turbantes, batas brancas, pinturas... Sem julgamento.
Em absolutamente todos os dias e blocos, muitos homossexuais. Livres, como devem ser. Felizes, dançando, rebolando, beijando na boca. O máximo de julgamento que ouvi era “Ah, é carnaval!”.
Mas, como diria o clichê do Los Hermanos: “todo carnaval tem seu fim”.
É o fim?
Por que o gay não pode sentir essa liberdade de beijar quem bem quiser na rua, na festa, em casa!? Só porque o carnaval acabou? Por que o candomblé não pode sair em paz com suas vestes, espalhar sua crença, sem ser rotulado de macumbeiro!? Só porque o carnaval acabou? Por que a mulher não pode ser livre pra usar a roupa que bem entender sem ser violentada e chamada de puta!? Só porque o carnaval acabou? Por que o corpo fora do padrão não pode assumir suas curvas sem se tornar ponto de referência e motivo de chacota ou especulação alheia!? Só porque o carnaval acabou?
Você aí que tá postando legenda de que “queria que essa fantasia fosse eterna”, vamos usar a roupa do respeito ao próximo o ano inteiro e não só nesses quatro dias de folia!?

Vamos? Então vamos!

Nenhum comentário:

Postar um comentário