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segunda-feira, 13 de abril de 2015

O que vi na rua

12 de abril de 2015. Segunda manifestação do ano, em todo o Brasil, contra a corrupção. Mesmo com o pé machucado, fui lá fazer a cobertura desse levante popular. Por incrível que pareça, eu estava realmente empolgado com a escala. Cobrir a manifestação é uma ótima oportunidade para participar do movimento e contribuir, de alguma forma, com o jornalismo brasileiro. Além disso, a gente só pode falar daquilo que realmente conhece, não é mesmo? Eu estava ansioso para chegar lá e ouvir da população indignada o porquê estavam protestando, contra o que lutavam e o que realmente os perturbavam.

Tive total liberdade na escolha da abordagem da minha matéria. Com isso, planejei mostrar apenas os manifestantes e expor o que eles foram fazer lá, se sabiam o que aconteceria caso Dilma saia etc. Na pauta, perguntas simples como “o que você veio fazer aqui?”, “o que pode acontecer?”, entre outras nesse sentido. Claro que, como no jornalismo nada é fechado, estava aberto a novas perguntas dependentes das respostas dadas.
 A rua realmente estava muito bonita, com todo mundo de verde e amarelo lutando pela dignidade do país, não há como negar. A concentração oficial estava marcada para às 10h e a saída para 12h. Esperava estar muito mais cheio do que eu vi. Pela mobilização nas redes sociais, pelos discursos oriundos pós-15 de março, pela crescente insatisfação popular. Tinha muita gente. Mas não as 20 mil pessoas estimadas pela organização.
Mas será que havia equidade no discurso dessas pessoas? Os manifestantes sabiam o que estavam fazendo lá? Ou era mais uma oportunidade para tirar a selfie com a camisa da CBF e colocar no instagram com a hashtag #vemprarua, mostrando-se engajado politicamente? Foi pra isso que fui pra rua.
Globeleza "UÉ, carnaval já acabou?"
Entrevistei dezenas de pessoas, adultos, jovens, crianças, sem distinção de idade. De cor até que sim, mas não foi por minha culpa. Os únicos negros que vi durante as 6 horas que estava acompanhando essa multidão foram alguns vendedores ambulantes e duas mulheres que pediam revolução marxista. Fora isso, brancos, aparentemente de classe média alta e, segundo o próprio narrador de cima do trio, “só gente bonita”.
As opiniões foram diversas. De reforma política com manutenção da presidente até intervenção militar, ouvi todas elas e trago aqui o que me chamou mais atenção. É claro que tinha muita gente coerente, que sabia exatamente o que estava fazendo lá e o destino do país. Mas, infelizmente, a maioria não era assim. Pelo menos entre os meus entrevistados e cartazes.
Agora chega de blá-blá-blá e vamos ao que interessa: a manifestação foi pra quê?


#ForaDilma
Sem dúvida, o que mais se viu foi gente e cartazes pedindo pra Dilma sair. Não só ela. O Lula, o PT, Toffoli... eram nomes fáceis de achar em meio a multidão. Mas o que não se viu foi algum cartaz “Fora Renan Calheiros”, “Fora Temer”, “Não à terceirização”. Assuntos que deveriam estar em pauta, em discussão, em atenção, foram completamente ignorados. Era muito mais fácil repetir no automático “Fora Dilma! Fora PT” do que pensar criticamente o sistema político brasileiro.
E não falo isso da boca pra fora ou de achismos. A maioria dos meus entrevistados falava que queria a Dilma fora do poder, seja por renúncia ou impeachment. Quando perguntado o porquê, a reposta também já era automática “não agüento mais essa roubalheira, essa corrupção”. Mas e se ela realmente sair? Fim dos problemas? Quem assume?
Fiz essas perguntas a uma menina que estava pintando o rosto de algumas pessoas de verde e amarelo. Na primeira pergunta, foi categórica ao informar que estava lá para tirar a Dilma do poder e que era contra tudo o que estava acontecendo. Perguntei o que aconteceria, quem assumiria, e ela assumiu não saber. Depois, perguntei um homem e ele disse que “deve ter outras eleições né?”, assim, logo de cara.
Acredite se quiser, a maioria não sabia responder. Ou continuavam repetindo o discurso decorado “não agüento mais essa roubalheira, essa corrupção”, ou admitiam não saber o que aconteceria. Mas estava lá. Porque é bonito, é social, dá like. Querem tirar por tirar, ser contra porque está na moda, ódio simples.

Cartazes
Ódio, inclusive, que era tema de um cartaz. Quando perguntei ao senhor que o segurava o porquê de tanto ódio e se isso ajudaria em alguma coisa, ele logo desconversou. “Eu não estou pregando o ódio. Só copiei essa frase de um blogueiro super inteligente, mas não quero incitar o ódio de ninguém, nem odeio assim o PT”, defendeu.
Outros cartazes afirmavam que as eleições foram fraudadas. Mesmo achando que isso parece mais coisa de criança mimada que não deixa o coleguinha brincar porque perdeu e é dono da bola (quem nunca?), fui perguntar a quem acreditava nessa teoria. Fui informado que existem provas concretas de que houve fraude, que eleições por urnas eletrônicas não são confiáveis. Quando perguntei das provas, mais do mesmo: falavam as palavras-chave do dia “corrupção” “fora PT” “Venezuela e Cuba”. E pronto.
Nossos países vizinhos eram alvo de muitos cartazes e discursos prontos. “Brasil não vai virar Venezuela”, “Vai pra Cuba!” eram parte do piloto automático. Mas não saía daí. Se perguntasse o que acontecia nesses países, o porquê o Brasil não pode virar isso, tem que ir praquilo, novamente a resposta automática “ditadura comunista!” e já colocava o apito na boca.
Ache o erro...
Outros cartazes eram coerentes, engraçados e faziam chacota com a figura da Dilma, do Lula, do símbolo do PT. Trocadilhos com os nomes, montagens de prisão, morte, enforcamento, nada disso faltou. Para minha grata surpresa, muita gente tratando especificamente da saída do Toffoli do julgamento da Lava Jato.
Não podemos esquecer também, claro, dos cartazes em inglês. Confesso ainda estar tentando entender o porquê de frases em outras línguas, mas ok. As traduções simultâneas eram mais erradas que resumo de artigo feito pelo Google Tradutor!

Army intervention
Em um desses cartazes em inglês, pedia-se a volta do regime militar. Não só em inglês. Faixas, cartazes e até um carro de som específico pediam claramente que os militares assumissem o poder. Constitucionalmente. “É por pouco tempo, uns seis meses, só pra instaurar a ordem. Depois a gente vota em alguém e pronto”, defendia um dos organizadores do movimento.
Foi difícil. Bem difícil. Ouvir, quase calado, gente defendendo o regime militar e desejando a sua volta não foi nada fácil.
Mas eu disse quase, e não totalmente calado.  “Então você está protestando pelo direito de não protestar?”, perguntei a um manifestante. Ele se fez de desintendido e afirmou que seria possível manifestar sim. “Acho que a gente vai poder manifestar sim, mas não vai ser preciso, porque estaremos satisfeitos com o governo. A gente está lutando contra essa ditadura petista comunista que estamos vivendo”, defendeu. Nessa hora, meu sangue ferveu. Não era jovem, devia ter lá seus 40 e poucos anos. Perguntei se viveu a ditadura, se gostava. “Era muito bom! Não era essa bagunça que é hoje! A gente podia andar nas ruas que tinha toda a segurança. Essa história que não tinha liberdade é balela! Eles só prendiam bandidos! Eu sou do bem, não fui preso”. Ri de nervoso. Retruquei. “Quem protestava contra o governo era considerado bandido. O senhor hoje seria considerado bandido. Concordaria em ser preso então?”. Confuso, voltou a afirmar que não era bandido e estava ali contra o PT, não o regime militar. Não era vagabundo nem comunista. Não sei se eu sentia dó, raiva, tristeza. Se xingava, argumentava, mandava estudar, assistir um filme ou instigar a lembrança. 
"Intervenção Militar já", pediam alguns.
O mais revoltante era ver que opiniões como essa não eram difíceis de serem encontradas. Pra onde eu andava, achava cartazes pedindo ajuda SOS Militar. Procurei ser mais imparcial e fui perguntando pessoas sem cartazes, só de cara pintada. Logo de cara, três pessoas já manifestavam o apreço pela intervenção. Se não fosse a primeira opção, era uma delas. “Não pode ser opção. Nem a última!”, era só isso que eu pensava a cada resposta ouvida.
É importante frisar que não eram todos os manifestantes que queriam esse absurdo. Como disse no início desse texto, não há unicidade de reivindicações, ainda mais quando o assunto é delicado assim. Em uma das voltas atrás de fontes, me deparei com uma “briga” entre manifestantes. Um gritava por intervenção militar, e o outro era veementemente contra. Pude acompanhar um pouco da discussão e, claramente, os intervencionistas não tinham paciência. Queria que o outro aceitasse a sua opinião e pedia até pro carro de som desligar o microfone pois queria que o seu grito entoasse mais alto. O outro manifestante, irritado e cansado de argumentar que esse não era o caminho, saiu para não piorar a situação.
Tudo isso, ironicamente, na praça da Liberdade. Isso mesmo. “Essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda!”. Sinto discordar de você, Cecília Meireles, mas parece que tem muita gente que não entende...

A quase coerência
Mas alguns cartazes e manifestantes me davam esperança de que havia sim gente sensata. Fui atrás. Mas me decepcionei. Uma das primeiras entrevistadas reclamava da alta taxa tributária. Alegava que grande parte do salário dela era destinada a impostos abusivos e que não via retorno. Até aí, tudo bem. Super apoiado e uma causa justíssima para se lutar. Mas aí veio a grande pérola do dia: no meio da argumentação, afirmou que esses impostos são do governo PT. Intrigado, perguntei para confirmar “mas a senhora acha então que só nesses 13 anos que se paga imposto? Antes não existia isso?”. A resposta foi surpreendente. “Claro! Antes eu não pagava imposto nenhum! Tinha o salário todo pra mim, fazia viagens a Europa e tudo. Agora não consigo fazer mais nada, o PT inventou esse tanto de imposto que só prejudicou nós trabalhadores”. Como bem fez o senhor que é contra a ditadura, saí de fininho, ainda incrédulo no que acabara de ouvir.
Outro caso de expectativa frustrada diz respeito à reforma política. Um homem segurava um cartaz contra o PMDB. Assim que vi, fui atrás para entrevista-lo. “Finalmente alguém que sabe como tudo vai acontecer”, pensei. Erroneamente. Quando perguntado o porquê do cartaz, o que sugeriria além do impeachment para tirar o PMDB do poder, ele já se confundiu todo, dizendo que queria a saída da Dilma e tudo bem manter o Temer (do PMDB) no cargo, já que ele é o menos pior.
Mas não os culpo. Essa incerteza e falta de esclarecimento pairavam no ar dessa manhã quente de domingo. Até mesmo o organizador do Movimento Brasil Livre está confuso sobre o que manifestar. O discurso pronto estava na ponta da língua, mas quando ia além, já se perdia na própria explicação e se contradizia, principalmente em relação à democratização da comunicação e a liberdade de imprensa e de expressão. Logo notava-se um total despreparo em pautas mais complexas, que demandam estudo aprofundado (se até eu, profissional da comunicação diplomado, não me sinto preparado para falar sobre a Democratização da Comunicação, por que não admitir essa falha?) ou pura ignorância (lê-se falta de conhecimento) mesmo, já que no mesmo bat-horário e quase no mesmo bat-local, acontecia o Encontro de Democratização da Comunicação. O diálogo entre as pautas seria fundamental, mas não houve. O mesmo diálogo que pregavam. Irônico?

Pra não dizer que não falei das flores
Como disse desde o começo, houve, sim, gente sensata e coerente. O que mais me arrancou aplausos foi o grupo dos Correios, que reivindicavam o fundo de garantia investido. Com pauta forte, firme e coesa, gritavam “cadê o meu dinheiro?” e estavam focados e organizados a fim da garantia dos próprios direitos. Grupo esse, também, que se manifestou contra a terceirização (o único grupo que se posicionou sobre o assunto, inclusive), mesmo que usando apenas exemplos próprios.
Sindicato dos trabalhodes dos Correios pediam o direito do Fundo de Pensão
Coerentes também foram dois jovens, que me abordaram pedindo pra dar entrevista. Com boa dicção, argumentavam que estavam lutando pela reforma política ampla, reconhecendo as falhas no legislativo e no judiciário, cientes de todo o processo do impeachment, sabendo que nenhum político governa sozinho e que a Câmara de Deputados precisa de uma reformulação urgente.
Mas a triste constatação deste domingo é que falta informação. Falta foco, conhecimento, consciência. É realmente lindo ver a população reunida em prol de algo, cantando em alto e bom tom o Hino Nacional Brasileiro, vestindo cores do Brasil, respeitando o outro (não vou aqui entrar no mérito de que, no meio do caminho, moradores de um prédio foram vaiados enquanto balançavam suas bandeiras vermelhas. Mas e a liberdade de expressão?) e lutando por um país melhor.
Mas um país melhor só é possível com conhecimento. E não estou falando de investimento em educação apenas. Quer manifestar? Ótimo! Mas pelo que? O que pode acontecer? Qual possível solução?

Antes de ir pras ruas, é preciso muito tempo ainda com a bunda no sofá. Lendo livros de história, assistindo documentários, lendo a constituição... A verdadeira manifestação só se dá com a informação correta. 

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