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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O machismo às avessas

Leonardo era o homem que toda mulher sonhou em ter: obediente, recatado, cozinhava, lavava e passava. Como amante também não ficava atrás. De corpo quase escultural naturalmente, entre quatro paredes fazia de tudo e deixava ser dominado pela esposa. Mesmo que não tivesse muito afim, depois daquele dia estressante no trabalho, era só a Lorena pedir que lá estava ele para a servir do jeito que ela gostava.
A rotina era como um conto de fadas para ela. Quando Lorena levantava para trabalhar, o café já estava pronto e posto na mesa. As crianças já de banho tomadas, quase prontas para a escola. Café tomado, ela já levava as crianças para a escola enquanto ele andava cerca de trinta minutos para pegar o ônibus para ir ao trabalho. Era melhor assim, já que a escola dos meninos ficavam no caminho do trabalho da mãe e, afinal, o carro era mais dela então ele que se virasse.

Era verão. 7h com sol de 12h. No longo trajeto de Leonardo, ele resolve tirar a camisa, para driblar um pouco o calor que sentia. No caminho, passa por um salão de beleza, com as portas abertas. Era sexta-feira, ele já estava cansado da semana e o salão já com um pouco de movimento à espera do fim de semana. Lá dentro três mulheres comentam entre si a beleza do corpo de Leonardo. Chegam até a comentar alto “ô lá em casa!”, “deixa eu lavar roupa nesse tanquinho”, dentre outras coisas do gênero. Leonardo quase sempre ouvia isso, quando andava mais livremente, mas não se sentia à vontade nem entendia muito bem o porquê. Afinal, ele só estava com calor, não queria chamar a atenção de ninguém na rua.
Trajeto feito, chega ao ponto de ônibus. Coloca a blusa, mas aquele “cheiro de homem” ainda instiga olhares curiosos de algumas mulheres. A lotação chega, horário de pico não tem como sentar. Vai em pé mesmo, no meio de tanta gente se espremendo. Até que percebe algumas mãos inconvenientes pelo seu corpo. “Deve ser porque está muito apertado aqui né, daqui a pouco desce gente e melhora um pouco”, pensava Leonardo. Alguns pontos se passam, algumas pessoas descem e as mãos femininas insistem em pousar sobre as pernas dele, mãos, traseiro e até mesmo na parte de frente da calça, como uma leve esbarrada. Ele tenta se esquivar, mas exatamente onde se encontra no ônibus ainda tem muita gente e não há para onde fugir.
Dá sinal e vai para o trabalho. Chegando lá, a colega de trabalho logo elogia a roupa “tá arrumado hein, Leonardo? Tá mal intencionado hoje hein!?”, brinca ela, enquanto desce a mão pelas costas da blusa apertada úmida de suor. A chefe também não deixa barato. Enquanto mostra um gráfico no computador, aproveita e pega na mão dele para guiar o mouse até o local indicado e elogia o cheiro, naquele misto de perfume francês com testosterona. O trabalho termina e o trajeto de volta pra casa se dá tal qual a ida: ônibus cheio, mãos bobas, elogios na rua.
Era sexta-feira. Dia de happy hour, bares e boates. Mas prefere ir pra casa ver com a esposa o que ela tinha programado para eles. Mal sabia Leonardo que ele não estava muito nos planos de Lorena. Ela estava ao telefone pra entrar no banho. Cumprimenta-o friamente e vai se arrumar. Ele pensa, inocentemente, que ela preparou alguma surpresa enquanto ele preparava o lanche das crianças. Ela se produz e avisa que vai à boate com as amigas e que era pra ele ficar em casa com os filhos.
Ele tenta retrucar, em vão. “Eu que sustento essa casa! Mereço uma hora de divertimento!”, “Você naquele trabalhozinho inútil ainda vai todo arrumado, perfumado, pra que? Quer conquistar a chefe pra ganhar aumento?”, justificava, aos gritos, a mulher. Leonardo, como sempre, aceitava. Para ele, ela estava certa. O maior salário era o dela, o trabalho dele não era tão dignificante assim e ela merecia um momento de descanso só pra ela e as amigas.
Aceitava. Calado. Era essa a regra da vida, foi isso que ele aprendeu, isso que ele vê como certo, era essa a condição. Cada um no seu devido lugar. A chefe da casa deve aproveitar a vida, enquanto o dominado deve cuidar dos afazeres domésticos. Não era violência, não era abuso, não era autoritarismo. Era o caminho natural das coisas


Esse conto pode ter causado estranhamento, mas agora inverta os papéis. No lugar de Leonardo, leia Lorena. No lugar de ele, é ela.
Eis a triste realidade, tão comum à nossa frente que nos cegamos.

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