Nesse (muito) tempo sem escrever no blog, tive várias idéias
de temas, mas nenhum saiu do pensamento. Aborto, feminismo, o estupro não
consumado, o machismo diário, tudo isso ficou martelando na minha cabeça
durante essas semanas, de como eu trataria tal assunto com boas bases de dados
e fatos.
Mas, como jornalista, resolvi tratar de factuais.
Não, não vou aqui falar de algum acidente, da falta d’agua,
de nota policial nem nada disso. Aqui vai valer a metalinguagem. O jornalismo
está em pauta e eu vou explicar agora o porquê de ser factual.
Ultimamente tenho visto alguns fatos que me deixam intrigado
(e desesperançoso) com a profissão que escolhi para a minha vida. Vejo
assessores contratados que nunca entraram em uma aula de jornalismo; estagiário
fazendo o papel de funcionário, mas com menos da metade do reconhecimento; e a
trágica crise mercadológica, com demissões em massa e insatisfações no
trabalho, levando sonhos por água abaixo devido à falta de valorização do
ofício.
Juntando tudo isso, surge um papo com uma ex-estagiária
sobre as frustrações do jornalista em formação e ainda pula na minha frente uma
sugestão de documentário sobre isso. Não tive como fugir. Era esse, então, o
meu tema de post!
Mas vamos ao que interessa (ou não): a minha “análise” sobre o
que está por aí na vida.
Recentemente, dois importantes veículos da imprensa
assustaram a classe com demissões em massa: o portal Terra e a Folha de SãoPaulo. Dentre as justificativas e análises publicadas na internet, mais do
mesmo: o corte de gastos. O que, logicamente, revoltou quem é da área. Afinal,
uma empresa de jornalismo estava abrindo mão de profissionais do jornalismo, em
detrimento a outros cargos existentes nas instituições.
Mas o que mais me chama atenção nessa história toda é a
desvalorização da profissão. Não só por parte dos veículos, mas pelos próprios
profissionais. Como disse ali em cima, vejo alguns casos que são de perder o
sono e deixar qualquer profissional que tenha dedicado anos da sua vida ao
estudo e qualificação frustrados e p* da vida. Quando uma prefeitura contrata
uma pessoa que sequer freqüentou uma aula básica de jornalismo, é um tapa na
cara na classe jornalística, cada vez mais desunida e desacreditada no próprio
valor. Quando alguns principais jornalistas são demitidos dos veículos em que
trabalham há décadas, é outro tapa na cara em quem tem esperança em fazer
carreira sólida no mercado, sem passar pelo carma de concurso público. Quando
um estagiário faz o trabalho pesado de um contratado, mas por um menor valor, é um
tapa na cara de quem busca se formar para realizar o sonho de trabalhar na área
ou em quem busca por maiores salários pelo acúmulo de trabalho.
Nesse turbilhão de acontecimentos à minha frente, me deparo
com uma sugestão de documentário exibido no Canal Brasil. O Mercado de Notícias
traz uma produção de peça teatral sobre o jornalismo mesclando depoimentos de
jornalistas consagrados. Dentre os temas muito bem discutidos, os profissionais
comentam sobre a definição de jornalismo, a relação com a fonte, o mito da
imparcialidade, o compromisso com a verdade, o advento da internet, o possível
fim do jornal impresso, a relação polêmica entre jornalismo e política, a diferença quase óbvia (mas nem tanto) entre o jornalismo e a publicidade, o
jornalismo colaborativo e esse boom de gente que acha que é jornalismo só por
postar uma foto no facebook e até o fim do jornalismo, que os mais pessimistas
insistem em acreditar.
Não vou me delongar aqui, porque todos esses temas rendem
uma dissertação de mestrado_ seria ousadia demais de minha parte expressar
minha humilde opinião sobre tais assuntos. O documentário é uma verdadeira aula
de jornalismo e a cada fala me lembrava algumas discussões em sala de aula ou
em meio a trabalhos feitos de última hora e, por que não, assunto também em
mesas de bar.
São temas que toda a sociedade deveria discutir e analisar,
principalmente o mito da imparcialidade e a importância do jornalismo_
especialmente por parte dos próprios jornalistas. Nessa minha pequena
experiência de mercado, já vi e vivi situações diversas de amor e ódio com a
profissão. Vi repórter chorando por ter sua matéria censurada dentro do próprio
jornal, orientações políticas descaradas e, principalmente, desunião e
frustração. Talvez por isso se discuta o fim do jornalismo. Mas duas frases
ditas nesse documentário resumem bem essa história e me dá esperança em um
futuro melhor.
"O jornalismo depende do jornalista"
Parece óbvio, mas parecemos nos esquecer disso. Sempre
culpamos as altas entidades, o governo, a economia, mas esquecemos de olhar
para nosso umbigo. Logo nós, tão ligados ao ego e umbiguistas! Mas enquanto
perdermos esperanças em nós mesmos, perderemos no jornalismo e,
consequentemente, nos acontecimentos da vida. Esse fazer jornalístico que vemos
depende exclusivamente do amor que move o profissional e, principalmente,
daquela vontade utópica de melhorar o mundo, a começar por si mesmo. Por isso
se torna imprescindível a união da classe, a valorização do nosso trabalho. Se
nós mesmos não nos valorizamos, como temos a cara de pau de exigir de nossos
patrões?
Temos que nos ater à frase que eu mais gostei do filme: "essa
profissão é muito nobre pra acabar". E é esse o recado que queria deixar
não só aos profissionais da área, mas também a todos vocês que se deram o
trabalho de ler até aqui. Se você está aqui, se está interessado em saber o que
acontece ao seu redor e os desdobramentos e análises, depende sim da nossa
profissão. Mais que isso. Depende da nossa formação. Porque só com ela conseguimos o senso
crítico, sabemos que nossa função não é apenas reportar que um cachorro mordeu
a orelha do seu dono. Mas sim o porquê ele fez isso, como era a relação entre
eles e os cuidados que devem ser tomados. O jornalismo não pode se restringir à
simplicidade do fato. Até porque nenhum fato é simples. Envolve o histórico,
opiniões, conseqüências, pontos de vista e todos os lados envolvidos. Isso é
jornalismo, esse é o jornalista, que tenta se isentar dos interesses próprios e
alheios para bem informar o seu público que confia tanto nele, já que se espera
a apuração com 100% de certeza do que se está informando. É nisso que acredito,
é nisso que tenho esperança e é isso que me faz levantar todos os dias às 6h da
manhã e enfrentar a cidade grande para a realização do meu sonho de pouco a
pouco.
É preciso ter paixão, amor, entrega. Sim. Mas também é
preciso reivindicar, se unir, exigir boas condições e valorizações. Aí sim
teríamos o prestígio que buscamos, seja para massagear o ego, seja para se
orgulhar do que faz.
(Trailer - O Mercado de Notícias)
(Trailer - O Mercado de Notícias)
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